Sobre

UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
INSTITUTO DE ARTES
DEPARTAMENTO DE ARTES VISUAIS

LABORATÓRIO EXPERIMENTAL DE MATERIAIS EXPRESSIVOS – LEME

PAPEL ARTESANAL

“papeleiros são felizes sortudos, um grupo especial que ama o que faz, dividindo uma incurável, contagiante, febril e misteriosa doença com todos os amigos e conhecidos: fabricação de papel’”
Jules Heller, 1978

Professora Thérèse Hofmann Gatti

1. INTRODUÇÃO

Neste milênio, no momento em que se busca cada vez mais discutir a importância da coleta seletiva de lixo e da necessidade de reciclar materiais, é imprescindível a divulgação de técnicas sobre o aprimoramento da reciclagem, estimulando a população a adotar técnicas que visem a redução, a reutilização e a reciclagem, em especial da redução, reutilização e reciclagem de papel.A Universidade tem papéis variados para atuar na temática ambiental. No entanto o mais fundamental deles é o que diz respeito a uma reflexão atualizada acerca das mudanças em relação a ação do homem sobre o meio ambiente.É notória a pesquisa de sobre a produção artesanal e a reciclagem de papel desenvolvida pela Universidade de Brasília. Desde 1981, a UnB investiga o assunto e difunde seus resultados para comunidade acadêmica.Merece destaque o Laboratório Experimental de Materiais Expressivos – LEME criado em 1983, pela Professora Zuleica Nunes da Silva como um desdobramento da disciplina do Instituto de Artes (IDA) Análise e Exercício dos Materiais Expressivos – AEME. Em 1991, a coordenação do LEME passa a Prof.ª MS. Thérèse Hofmann contemplando uma linha de pesquisa que tem por objetivos: (i) resgatar o conhecimento das técnicas tradicionais de manufatura e da história da produção artesanal dos materiais, remontando o processo de evolução do homem através da manipulação destes; (ii) buscar fontes alternativas de investigação, observação e sistematização de dados empíricos regionais, componentes de nossas próprias raízes culturais, articulando o conhecimento prático e popular da região Centro Oeste e da Universidade de Brasília; (iii) contribuir para o desenvolvimento do ensino da arte pela possibilidade de obtenção dos materiais a um custo reduzido, visando a preservação da natureza e a conscientização do homem ao meio em que vive.Dentro de uma linha de pesquisa que contempla o desenvolvimento tecnológico na área de reciclagem de papel e o estudo de fibras alternativas para a produção de papel, as seguintes pesquisas foram realizadas:

  • Reciclagem e fibras alternativas para a produção e restauração de papel (1992);
  • Estudo da bananeira (Musa sp.) como matéria prima alternativa para fabricação de papel para restauração (1993);
  • Impressão em papel artesanal e papel reciclado (1993);
  • Pesquisa da fibra celulósica de sisal e soja (1995 e 1996);
  • Pesquisa da fibra celulósica de soja e abacaxi (1995 e 1996);
  • Reciclagem de papel moeda para impressão (1995, 1996, 1997);
  • Base fotográfica a partir de papel moeda reciclado (1995, 1996 e 1998);
  • Pesquisa da fibra celulósica de milho (1997);
  • Uso de papel reciclado e artesanal como material para absorção acústica (1999 – em andamento) – Trabalho em parceria com o Departamento de Arquitetura;
  • Pesquisa da fibra celulósica da cana-do-reino (1999)
  • Pesquisa da fibra celulósica de bambu para confecção de papéis para tintas aquosas (2001)
  • Reaproveitamento de resíduos de fibras de acetato de celulose e filtros de cigarros

A origem da matéria prima utilizada no laboratório são os papéis “pós consumo” oriundos da Universidade de Brasília (em uma pesquisa sobre a composição do lixo da UnB1, diagnosticou-se que cerca das 42,5 ton. de lixo gerados por dia pela universidade 51% são compostos de papel e papelão) e as fibras utilizadas (pita, bananeira, cana-do-reino, grama, folha de bambu, casca de eucalipto) são oriundas das podas dos jardins do campus universitário, realizadas pela equipe de Parques e Jardins da Prefeitura do Campus.

Através do LEME foram ministrados cursos de extensão sobre a manufatura artesanal de papel em Minas Gerais, São Paulo (Oficina das Arte do Livro), Goiás, Pará, Brasília. Em Brasília, através de uma parceria com Fundação Educacional do Distrito Federal foram implantados oficinas de papel em diversas escolas da rede pública do Distrito Federal, além de cursos de papel ministrados no Núcleo de Custódia Papuda/DF. Dentro da comunidade universitária, o LEME, desde 1998, em parceria com a Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos/FINATEC, dissemina a prática de manufatura do papel, levando em consideração o contexto sócio-econômico e ambiental que envolve a reciclagem e o uso de fibras alternativas para a fabricação do papel. O LEME também procura incentivar o uso de tais papeis dentro da comunidade universitária, na forma de convites de formatura, materiais de divulgação, envelopes, diplomas, certificados, etc.

(1)Pesquisa realizada pelo Grupo de Resíduos Sólidos do Programa Agenda 21 da UnB (1999/2000)

2. HISTÓRIA DO PAPEL

O papel tem uso tão comum em nosso cotidiano que raramente refletimos que o material do qual se fazem livros, jornais, certificados, impressos, copos, pratos, guardanapos, roupas e outros inúmeros objetos de uso digno ou modesto, teve suas origens por volta de dois mil anos atrás.Desde o começo dos tempos, o homem tem necessidade de expressar e registrar suas idéias. Vemos como prova disto as pinturas e inscrições feitas em pedras, argila, marfim, cera, chumbo, folhas de palmeiras, peles de animais, entrecascas de várias plantas, conchas e cascos de tartaruga.Por volta de 3.700 A.C., os Egípcios começaram a usar o Papiro (Cyperus Papyrus, planta aquática cujos colmos podem atingir até quatro metros de altura) como suporte. O miolo fibroso da planta era cortado longitudinalmente em tiras, as quais eram dispostas em camadas perpendiculares, prensadas, polidas e alisadas com marfim ou conchas até obterem um laminado cuja superfície servia para a escrita.O pergaminho, que nada mais é do que a pele de animais (carneiro, velinos e camelos) tratada como superfície destinada à escrita, tem sua invenção (ou aperfeiçoamento) creditado ao reinado de Eumenes II de Pérgamo (+ ou – 2.000 A.C.) com o intuito de concorrer com o papiro.Com a invenção do pincel de pelo (250 A.C.), os Chineses passaram a utilizar a seda como suporte de escrita. No Novo Continente, povos como os Maias e Astecas utilizavam uma tela obtida a partir de entrecascas de árvores prensadas, conhecidas como ‘amatl’, para registros astrológicos.O papel, tal como conhecemos hoje, teve sua origem na China. A data da sua invenção é incerta e há controvérsias sobre quem o inventou. Segundo a maioria dos historiadores, e dentre eles o renomado Dard Hunter (1978), o ano de 105 D.C é usualmente citado como o da invenção do papel, porque foi o ano em que T’sai Lun, funcionário imperial, reportou oficialmente ao imperador chinês Ho-Ti o processo de produção desse novo suporte.

Qualquer que seja a verdade, o fato é que os primeiros papéis foram produzidos pelos chineses a partir de fibras vegetais provalvelmente de amoreira, rami, cânhamo e redes de pesca (bambu).

O papel era obtido de fibras vegetais que maceradas formavam uma pasta a qual era misturada com água em uma tina. Com o auxílio de um molde (um tipo de peneira estirado sobre um bastidor de madeira) coava-se a polpa para que o emaranhado de fibras pudesse ser colocado ao sol e secar, resultando assim em um suporte próprio para a escrita.

Somente no ano de 610 D.C. é que os coreanos e japoneses tomaram conhecimento sobre o novo material. No Japão foram desenvolvidos intensos trabalhos de pesquisa e aperfeiçoamento das técnicas de manufatura, bem como a exploração de novas fibras abundantes, como o gampi (Diplomorpha sikokina), kozo (Broussonetia kajinoki) e mitsumata (Edgeworthia papyrifera). Não podemos deixar de mencionar que os Japoneses são famosos pela utilização de uma mucilagem vegetal, proveniente do Tororo-aoi (Abelmoschus maniihot) e do Nori-utsugi (Hydrangea floribunda) que é adicionada à tina de formatação das folhas, permitindo que os papéis, extremamente finos, empilhados ainda úmidos e sem a separação de feltros, não grudem uns aos outros.

Tido como segredo imperial, a manufatura papeleira só começa a ser difundida quando em 751 D.C os prisioneiros de guerra chineses ensinaram aos árabes o segredo do papel, sendo então estabelecido um centro de produção em Samarcanda.

Foi longa e lenta a rota do papel, pois sua manufatura só conseguiu atingir a Europa dez séculos mais tarde, por caminhos tortuosos. Os árabes o produziam, comercializavam-no e o transportavam da Ásia pelo norte à França. Foi justamente na Espanha, em Toledo e Valença, que se estabeleceram as primeiras manufaturas de papel na Europa, no ano de

1150. Somente em 1189 a França deu início à sua produção, e os italianos fundaram suas primeiras manufatura em meados de 1275, e 1276 em Fabriano e Bolonha. Em Fabriano foi instituída, pela primeira vez, a maneira de identificar o papel, por meio da marca d’água.

Outros países foram estabelecendo suas manufaturas nacionais, utilizando-se os mais diversos materiais (algodão, bambu, linho, trapos). O quadro abaixo mostra a lentidão do processo de desenvolvimento da produção de papel.

Alemanha
1320
Portugal
1411
Inglaterra
1490
México
1575
EUA
1690
Brasil
1811

Fonte: Mota e Salgado, 1969

A utilização de fibras oriundas de madeiras só acontece na segunda metade do século XIX, com o desenvolvimento dos processos químicos de cozimento da madeira e o aperfeiçoamento mecânico das máquinas inventadas

3. FABRICAÇÃO DO PAPEL

3.1. MATÉRIA PRIMA

Sabemos que o papel é constituído basicamente por celulose, a qual é um tipo de carboidrato formador da parede celular de todas as plantas, sendo, portanto, presente em todos os vegetais. Embora a maior parte das fibras utilizadas pela indústria papeleira seja proveniente do tronco das árvores, ela é também extraída de plantas, tais como: abacaxi, grama, sisal, bananeira, algodão, cana-de-açúcar, palha de arroz, taboa,etc, e também de aparas de papéis usados.

As fibras vegetais, do ponto de vista papeleiro, são geralmente, classificadas em fibras longas e fibras curtas. Normalmente as longas variam de 2 a 5 mm de comprimento, enquanto as curtas variam, em média, de 0,5 a 4,5 mm.

Fibra Fibra Comprimento
Nome comum Nome cientifico (mm)
Araucária
Araucária sp
2,00-5,37
Pinus
Pinus sp.
1,55-4,68
Bambu
Bambusa sp., Phyllostachys spp.
1,16-6,16
Eucalipto
Eucalipto sp.
1,15-4,15
Gmelina
Gmelina
0,70-1,40
Bagaço de cana
Saccharum officinarum
0,72-1,79
Linter de algodão
Gossypium sp.
0,82-3,91
Juta
Corchorus capsularis
2
Rami
Boehmeria nivea
120
Crotalária
Crotalaria juncea
7,5
Kenaf
Hibiscus cannabinus
6
Abacá
Musa textiles
6
Sisal
Agave sisalana
3-4

Fonte: Celulose e Papel, 1988

3.2. OBTENÇÃO DA POLPA

3.2.1. FIBRAS VEGETAIS

O processo de obtenção artesanal da polpa pode ser químico ou mecânico.
– químico: elimina grande parte dos componentes não-celulósicos, como a lignina através do tratamento químico – cozimento com solução alcalina: NaOH (Soda)1
– mecânico: a pasta é obtida pelo processo mecânico de maceração das fibras – pilão, martelo, etc.

(2)Soda Cáustica (NAOH) – Hidróxido de Sódio
Descrição: Existem vários níveis de pureza da soda e quanto mais pura ela for, mais irá reagir. A função da soda nas plantas é retirar a lignina e outros componentes (extrativos), deixando somente a celulose que é a matéria-prima para a fabricação de papel. Existem outros elementos que tem a mesma função que a soda. Exemplo: decoada (cinzas vegetais), cal e ação de bactérias.
Para a extração da celulose cozinha-se o vegetal com NAOH ( soda cáustica) em um recipiente de latão, aço inox ou ágata. A proporção de soda e o tempo de cozimento determina-se de acordo com o vegetal escolhido. Após o cozimento lava-se bem o vegetal ( agora já transformado em polpa) pois só assim é possível retirar toda a soda cáustica utilizada.

Em ambos os casos recomenda-se que a polpa passe por um processo de desagregação da fibra (liquidificador), e quando possível pelo processo de refinação (holandesa e ou moinho de bola).

3.2.2. APARAS DE PAPEL

O processo de obtenção da polpa através de aparas de papel, tanto pode ser químico – cozimento em solução alcalina das aparas, quanto mecânico – desagregação das aparas em liquidificador, após um tempo de imersão em água (12 a 24 horas).

3.3. BRANQUEAMENTO

O branqueamento pode ser definido como um tratamento físico-químico que tem por objetivo melhorar as propriedades da pasta celulósica a ele submetida. Os parâmetros usuais que medem a eficiência do branqueamento são as propriedades ópticas da pasta – alvura, brancura, estabilidade da alvura. O agente clareador mais utilizado é a água sanitária (podendo-se também usar o cloro e peróxido de hidrogênio)

3.4. ADITIVOS

Uma folha contendo exclusivamente celulose não possui as características do papel que geralmente são desejadas. Uma folha produzida exclusivamente de fibras de celulose é porosa, de superfície enrugada e com pouca resistência à umidade. Desta forma, é comum a adição de produtos cuja a finalidade é acrescentar ou melhorar certas propriedades do papel. São eles:

3.4.1.CARGAS – As cargas têm como finalidade básica propiciar maior uniformidade à superfície e melhorar as características, tais como alvura, lisura e opacidade, fornecendo ainda, melhores condições para uma boa impressão. De modo geral as cargas tendem a aumentar a gramatura do papel. Entretanto, como a carga no papel preenche os espaços que não puderam ser preenchidos pelas fibras do papel, a presença da mesma tende a diminuir a resistência. As cargas podem ser incorporadas em diversos pontos do processo de fabricação do papel1, embora haja estudos para identificar o local mais adequado. Os principais pigmentos usados como cargas são: dióxido de titânio (purificação química dos minerais rutilo e anatásio), caulim (caulinita), carbonato de cálcio (obtido do calcário) e talco (silicato hidratado de magnésio, geralmente extraído de depósitos naturais).

3.4.2. COLAS – Uma propriedade importante para um grande número de papéis é a resistência à penetração de líquidos como água, tinta, sangue, leite, sucos, óleos e gorduras. Para isso, existem dois tipos de colagem de papel: a interna e a superficial. A colagem interna tem a característica de desenvolver a resistência à penetração de líquidos em toda a estrutura fibrosa do papel, enquanto que, com a colagem superficial, este fica restrito às camadas mais externas.

3.4.2.1. Colagem Interna: é um processo onde produtos químicos são adicionados à massa durante sua preparação, para se depositarem sobre as fibras com o propósito de controlar a penetração de líquidos no papel. Os principais produtos químicos utilizados são colas à base de breu, silicones, polietilenos e colas sintéticas. Papéis para imprimir, escrever, embalagens, sacos e vários outros fins são fabricados de modo a oferecer resistência a penetração de água, e por isso são submetidos ao processo de colagem interna. Papéis de seda, mata-borrão, toalha, lenço, guardanapo, são chamados de materiais não colados.

3.4.2.2. Colagem superficial: tem por objetivo aumentar a resistência à penetração de líquidos, aplicando produtos químicos adequados sobre a superfície já formada da folha de papel. Além de dificultar a penetração de líquidos, este processo melhora as características mecânicas da folha. Os principais materiais aplicados à folha são: cola e gelatina, álcool polivinílico, carboximetilcelulose (CMC) e amidos(4). Entretanto, é comum o uso do CMC como colagem interna

(3)No processo artesanal recomenda-se acrescentar a carga na etapa de formação da folha (cuba).na confecção de papéis artesanais, pois também tem a função de dispersor.

3.4.3. CORANTES e PIGMENTOS – Na indústria papeleira os corantes são mais utilizados que os pigmentos na coloração do papel, devido as seguintes vantagens: maior solubilidade, maior poder tintorial, disponibilidade de maior gama de tonalidades, e por não alterar as propriedades mecânicas do papel. Já os pigmentos são sólidos finamente divididos obtidos a partir de minerais ou da síntese de compostos orgânicos, não apresentando afinidade pelas fibras, sendo fixados sobre esses elementos através do sulfato de alumínio.

3.4.5. MORDENTES – Qualquer substância que, combinada com um corante, serve para fixar as cores. Exemplos: sulfato de alumínio, alume de potássio.

3.5. CONFECÇÃO DA FOLHA

Até o século XVIII as folhas de papel eram feitas manualmente, quando no ano de 1877, o francês Louis Robert inventou uma máquina que possibilitava a formação de uma folha de comprimento infinito. Embora o avanço tecnológico tenha contribuído para melhoria do processo, ainda hoje existem centros de produção artesanal – onde um operário imerge uma tela fixa em moldura de madeira, em um tanque contendo suspensão de fibras, formando assim uma folha.

Aqui descrevemos uma técnica semelhante: Coloque em uma cuba, água suficiente para cobrir a tela e o bastidor. Adicione a polpa já batida na cuba e agite um pouco com as mãos. Acomode o bastidor sobre a tela, introduza – os na cuba a um ângulo de 45 graus fazendo depois movimentos horizontais.

(4)CMC – Preparo para um litro de cola – Material necessário: 1 litro de água, 1 colher de sopa de CMC. Modo de fazer: Bata no liquidificador até dissolver.
Cola de Quiabo – Preparo para 1 litro de cola – Material necessário: 1 litro de água, 3 a 4 quiabos. Modo de fazer: Bata no liquidificador até dissolver e coe.
Gelatina – Material necessário: gelatina, alume de potássio. Modo de fazer: Dilua a gelatina seguindo as instruções que constam no verso do pacote. Adicione 1 colher de chá de alume de potássio na água fervente e coe para reter os cristais do alume Coloque a gelatina já preparada em uma cuba, mergulhe o papel nessa mistura, retire-o e deixe secar.

Retire o conjunto tela/bastidor da cuba e deixe escorrer um pouco, depois coloque o conjunto da tela/bastidor em uma mesa, retire o bastidor (janela) e vire a tela sobre um “mata-borrão” – um jornal, feltro, pano de algodão, linho ou entretela sem goma. Se necessário retire o excesso de água com spontex ou uma esponja comum. Faça leve pressão da tela sobre o feltro e dê uma leve batida no lado oposto da mesma para que a folha se acomode no mata-borrão ou “feltro”.

3.6. PRENSAGEM ÚMIDA DAS FOLHAS

A função primordial da prensagem úmida é remover a quantidade máxima possível de água da folha antes de submete-la à secagem. Outras funções são a redução do volume e a melhora da lisura da folha. Uma vez que temos um conjunto de folhas e feltros, devemos coloca-los entre tábuas de madeira ou fórmica e leva-las à prensa.

3.7. SECAGEM

Entende-se por secagem o processo de remoção da água por evaporação ou calor.
• por evaporação: leva-se o molde ou o “feltro” para secar ao sol, no caso deste último recomenda-se a acomodação em um varal.
• por calor: utilizando-se um ferro de passar roupa retira-se a umidade da folha de papel que está entre os feltros ou entretela.

3.8. TIPOS DE PAPÉIS

3.8.1.PAPEL FLOCADO
Material Necessário: Flores (do campo, bouganville, rosas, gramas, etc), pedra hume, alume de potássio, aparas de papel ou fibras vegetais, CMC (carboximetilcelulose);
Modo de Fazer: Preparar a polpa de aparas de papel (papel reciclado) ou a polpa de fibras vegetais. Para flocagem é necessário que as flores, ou melhor, as pétalas das mesmas, passe por um cozimento rápido com alume de potássio ou pedra hume. Para isso, deixe a água ferver, coloque uma colher de chá de alume e as pétalas, espere vinte segundos e faça um choque térmico com água corrente e reserve. Desagregue ou não as pétalas no liquidificador. Adicione-as a cuba com polpa. O uso da cola pode ocorrer no momento em a polpa for desagregada, ou na cuba antes de formatar o papel. As cascas de cebola e alho necessitam de um cozimento em solução alcalina (soda cáustica), pois as mesmas mesmo cozidas com água ainda não estão no ponto para serem utilizadas na flocagem.

3.8.2. PAPEL TINGIDO
Material Necessário: aparas de papel ou fibras vegetais, corantes para tecido tais como Tingecor Guarany ou similar, alume e cola de CMC.
Modo de Fazer: Preparar a polpa de aparas de papel (papel reciclado) ou a polpa de fibras vegetais. Coloque água para ferver em uma panela comum (não é necessário panela inox pois não iremos utilizar soda cáustica). Coloque mais ou menos uma colher de chá de alume em um tubete de corante. Misture bem, e adicione a mistura a polpa de reciclado ou a polpa de fibras, esta última com tonalidade clara. Misture e deixe ferver um pouco. Bata no liquidificador com meio copo de CMC.

Observação: Algumas plantas possuem uma concentração de matéria corante que pode ser utilizada para o tingimento de fibras. No interior do Brasil o corante vegetal é usado para tingir fios do tear e alguns tecidos. A casca da cebola, a macela, o açafrão, o urucum, a casca de nozes, o chá preto, a casca de barbatimão e o café, são utilizados para a extração da cor.

O material para extrair a cor é semelhante ao do tingimento. Pode ser usado qualquer tipo de panela, mas com uma ressalva: a panela de cobre terá um tingimento diferente da panela inox, pois existem reações com o material que alteram a cor do tingimento. Material Necessário: Panela, alume, peneira e a planta da qual irá se extrair a cor. Modo de Fazer: Cozinhe a planta com duas colheres de chá de alume até que a água do cozimento esteja tingida. Coe a água e coloque um pouco de papel reciclado batido nessa água, cozinhe por alguns minutos mexendo para incorporar a cor a polpa.

3.8.3. PAPEL DE LÂMINA
Material Necessário: Bouganville (só as folhas modificadas, sem os pistilos), alume, CMC, tecido de voil, entretela (mata-borrão) e panela comum.
Modo de Fazer: Coloque a água para ferver com uma colher de chá de alume. Quando estiver fervendo coloque as folhas modificadas e espere vinte segundos. Faça o choque térmico em água corrente. Coloque as folhas modificadas em uma bacia com meio copo de CMC e vá montando as folhas modificadas sobre o tecido. Depois que estiver feita a montagem da folha, cubra com o tecido e prense entre mata-borrões. Seque várias vezes para poder tirar a folha do tecido.

3.8.4. PLASTIFICAÇÃO
Material Necessário: três partes de cola branca (cascorez), uma parte de água uma parte meia de álcool.
Modo de Fazer: Misture bem e devagar todos os ingredientes para não talhar a emulsão. Em seguida passe duas ou três camadas da mistura sobre o papel. Todas no mesmo sentido. O papel mais espesso é o mais indicado para ser plastificado.

3.8.5.PAPEL PARA AQUARELA
Os melhores papéis de aquarela são os que possuem fibras longas (algodão e linho). Entretanto, faz-se necessário uma colagem interna e uma externa para que o papel receba melhor a tinta.
Material Necessário: Morim de algodão ou linho, alume de potássio, CMC, gelatina incolor e uma refinadora (Holandesa) ou similar.
Modo de Fazer: Corte o tecido em tiras bem finas e processe na refinadora. Ao fazer o papel utilize uma cola na polpa e outra para revestir a folha já confeccionada.
Modos de preparação das colas:
CMC: Preparo para um litro de cola; Material necessário: 1 litro de água, 1 colher de sopa de CMC. Modo de fazer: Bata no liquidificador até dissolver.
Gelatina: Material necessário: gelatina, alume de potássio; Modo de fazer: Dilua a gelatina seguindo as instruções que constam no verso do pacote. Adicione 1 colher de chá de alume de potássio na água fervente e coe para reter os cristais do alume Coloque a gelatina já preparada em uma cuba, mergulhe o papel nessa mistura, retire-o e deixe secar

3.8.6. PAPEL DE SERRAGEM
Material Necessário: Duas partes de polpa de papel reciclado, uma parte de serragem e CMC.
Modo de Fazer: Misture a serragem e a polpa de papel reciclado com o CMC. A serragem não precisa passar pelo processo de cozimento em solução alcalina. Se quiser fazer papel marché, utilize cola branca.

3.8.7. PAPEL AMATL

Material Necessário: Casca de amoreira, vinagreira, soda cáustica, pedra de mármore ou martelo de carne de madeira e tábua de madeira para servir de base.
Modo de Fazer: Ferver a casca de amoreira em solução alcalina e lavar bem. Colocar as fibras alinhadas horizontalmente e depois colocar as fibras alinhadas verticalmente. Bater com a madeira ou com a pedra de mármore – quanto mais bater, mais as fibras se misturam.

3.8.8. PAPEL MARMORIZADO
A marmorização é uma técnica utilizada por todos os povos, do oriente ao ocidente, na confecção de capas, folhas de rosto de livros, tecidos estampados, etc.
Material Necessário: papéis, tintas à base de óleo (tinta esmalte, tipográfica ou óleo), solvente, um pacote de gelatina incolor ou CMC, alume de potássio, água, cuba, pente, agulhas.
Modo de Fazer: Amoleça a gelatina com água fria e acrescente água fervente com alume aos poucos até dissolver, ou prepare uma solução um pouco mais densa de CMC. Coloque a gelatina ou o CMC em uma cuba e reserve(5). Dissolva as tintas em potes separados e com o auxílio de pincéis ou palitos de madeira, faça pequenos pingos na mistura de gelatina que foi colocada na cuba. Esses pingos irão se alastrar formando algo semelhante a pedra de mármore. Faça desenhos com o pente, pegue um papel e coloque-o na superfície da água. O papel irá absorver a tinta e a imagem que foi criada daquela mistura. Retire o papel e deixa secar. Se a mistura utilizada for água + CMC, retire o papel da cuba e lave a superfície com a tinta em água corrente.

4. ESPAÇO FÍSICO, EQUIPAMENTOS E MATERIAIS BÁSICOS

baldes e bacias retangulares ou tanques;
corda e prendedores;
fogão;
formas (telas com moldura);
guilhotina;
liquidificador industrial ou mesmo caseiro se for para uma pequena oficina;

(5)A mistura água + gelatina ou água + CMC tem a função de dar mais densidade à solução e dificultar a decantação do óleo (da tinta). O alume favorece a fixação da tinta no papel.

  • materiais gerais para limpeza.
  • materiais para acabamentos: cola, tinta, pincéis;
  • mesa forte para a prensa;
  • panela grande;
  • papel (jornais, revistas, folhas usadas, etc.);
  • pequenas ferramentas: tesouras, espátulas, escovas, materiais de limpeza, etc.;
  • perfurador para encadernação em espiral;
  • prateleiras;
  • prensa;
  • tecidos, feltros, mata-borrão, entretelas, linho, etc.

5. BIBLIOGRAFIA

Roth, Otávio – “O que é papel”, Ed. Brasiliense, 1983.

Hunter, Dard – “Papermaking”, Dover Publications, New York, 1 978.

Huges, Sukey – ‘Washi: the world of japanese paper”, Kodansha lriternational, Tokyo, 1978.

Coil, T. Costa – “Manual dei fabricante de papel”, Bosch, Casa Editorial, Barcelona, 1953.

“Paper – Art & Tecnology” – Word Print Council, San Francisco, 1979.

Heller, Jules – “Papermaking”, Watson-Guptili Publications, New Ydrk, 1978.

IPT – “Celulose e Papel” 2 vols., SENAI e IPT, São Paulo, 1982.

Gatti, Thérèse H. &, Kawahara, Regina – Curso de Papel Artesanal – Apostila, UnB,1992.

Gatti, Thérèse H. – “O Papel: Suporte para Textos e Imagens” Tese de Mestrado, Universidade de Brasília, 1999.

Adams, Berenice Gehlen. – “Faça uma Oficina de Reciclagem em sua Escola” http://sites.uol.com.br/projetovida/OFICINADERECICLAGEM.HTM

Crivelli, Ricardo. – “Papel Hecho a Mano” Argentina: IMAGINADOR, 1996.

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